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Apresentação

No dia 11 de dezembro de 2012, em Porto Alegre, defendi minha tese de doutorado sobre Literatura e Novas Tecnologias, utilizando Alice for iPad como objeto de estudo. É possível que tenha sido a primeira tese de doutorado sobre o iPad, pois um doutorado requer 4 anos e o iPad fora lançado há apenas 2 anos e meio. Ocorre que meu objetivo inicial era trabalhar com literatura digital para web em língua portuguesa, seguindo a trilha aberta por Katherine Hayles e o que ela chama de eletronic literature. Entretanto, poucos exemplos encontrei na web, insuficientes para formar um corpus acadêmico consistente (muitos deles estão citados em nosso catálogo).

Verdade que mudar o objeto para Alice ajudou muito minha tese, mas meu lado de escritor, amordaçado ao longo dos anos finais de redação da tese, não se conformou e começou a criar hipóteses, ideias, colocando poucas delas na prática, mas fortalecendo um palpite que eu já tinha lá no começo disso tudo: que literatura digital não era o que estava se chamando de literatura digital pelo simples fato de que livro digital não era o que estava se chamando de livro digital.

Hoje livro digital é sinônimo de e-book, arquivos em formato PDF, EPUB, etc, que são lidos em mídias digitais. O problema é que os e-books têm a mesma estética, a mesma lógica do livro impresso. São livros digitalizados, não livros digitais. Dizer que um Dom Casmurro publicado em EPUB é livro digital é o mesmo que filmar uma peça de teatro e chamar a isso de cinema. Não! Nada mais chato que teatro filmado... O cinema tem sua própria linguagem, sua própria estética, e a literatura digital também requer outro olhar, outra estética.

Literatura digital, simplificando conceitos muito bem trabalhados por Hayles, é aquela obra literária feita especialmente para mídias digitais, impossível de ser publicada em papel, pois utiliza ferramentas próprias das novas tecnologias, como animações, multimídia, hipertexto, construção colaborativa. Claro que um projeto de literatura digital não contém tudo isso ao mesmo tempo, assim como um filme pode prescindir dos efeitos visuais ou usá-los de forma comedida. Cada projeto de literatura digital tem uma forma de lidar com essas ferramentas, considerando a limitação do autor ou da equipe de criação e, principalmente, o efeito estético pretendido com a obra.

A animação, o hipertexto ou o som, em literatura digital, devem ser compreendidos como a ilustração na literatura infantil: não estão lá para incentivar o leitor a chegar no texto, e sim para potencializar o efeito desejado. É fundamental, portanto, que um projeto de literatura digital tenha o texto, considerando-se aqui literatura a milenar arte da palavra.

Exatamente pelo uso de múltiplas linguagens, ao longo desse site usamos o termo projeto de literatura digital ou obra. Obra, aqui, deve ser entendido como “um objeto dotado de propriedades estruturais definidas, que permitam, mas coordenando-os, o revezamento das interpretações, o deslocar-se das perspectivas”, como propõe Umberto Eco em Obra Aberta. Está se falando, portanto, em uma literatura para além dos livros.

Note, porém, que não está se preconizando o fim do livro em papel. Talvez o e-book (esse livro digitalizado) substitua o livro em papel em muitas áreas. Mas nossa questão não é essa, nossa questão é mostrar que a literatura, que começou antes do suporte em papel, sobreviverá a ele como a alma sobrevive ao corpo, com novas formas, novas possibilidades talvez nunca antes imaginadas. Não queremos que um usuário largue um livro para ler literatura digital, e sim que ele largue por 10 minutos seus joguinhos ou redes sociais e leia um projeto de literatura digital.

Evidentemente que a literatura digital já tem recebido muitas críticas. A primeira crítica que se ouve é que esses livros interativos, cheios de música e animação, não são livros. São brinquedos, jogos. Mas o que são, então, os milhares de livros infantis com textos enxutos e ilustrações exuberantes ocupando toda a páginas, todas as páginas? Huizinga, em Homo Ludens, já dizia que a literatura é, sim, uma atividade lúdica, mas não é um jogo, pois num jogo o “objetivo principal é antes de mais nada e principalmente a vitória”. Negar à literatura essa transposição para novas mídias é dificultar sua chegada ao terceiro milênio, subtrair sua força e subestimar sua função na sociedade.

Por fim, devemos reconhecer que muitos dirão que os projetos experimentais aqui exibidos são muito rudimentares, simplórios. Lembre-se, porém, que o romance, hoje o gênero mais importante da literatura, surgiu há apenas 500 anos, com a publicação de Dom Quixote, em 1605. E um dos aspectos fundamentais para que fosse concebida uma obra com a estética do que chamamos modernamente de romance foi a invenção da prensa de Gutenberg, pelo menos 150 anos antes. Ou seja, foram necessários 150 anos para a mídia impressa forjar o gênero romance.

Claro que vivemos em outros tempos, a velocidade do mundo é outra, mas é possível que não tenha sequer nascido ainda o artista que entenderá todas as possibilidades das tecnologias digitais e produza uma obra de arte de literatura digital, obra capaz de transcender tempo e espaço. Por questões comerciais, é possível que seja um norte-americano, um europeu, um chinês. Mais possível ainda é que não seja obra de uma pessoa só, mas de um estúdio como a Disney Books. O certo é que a literatura digital é o gênero das próximas gerações, é ela que consolidará sua presença, elegerá seus precursores, definirá sua poética.

Nós, nascidos num canto do mundo e no milênio passado, estamos apenas tentando demonstrar com esses exercícios a permanência da literatura. Por vocação. Por afeto. Acreditamos que enquanto houver um poeta, uma língua e um leitor, lá haverá literatura. Seja na pedra, no papel, na tabuleta, no tablet, na terra, no espaço ou no ciberespaço.

Marcelo Spalding
27 de dezembro de 2012

 

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