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A resolução da palavra

Cássio Pantaleoni

Vejo, em toda a parte, os rudimentos de um debate entre os “e-books” e os livros impressos. O confronto pretende encaminhar o futuro do livro, como se tal futuro pudesse emprestar ao texto – à palavra escrita – algo que lhe falta. A corrente querela nos confunde. Afinal, do que trata exatamente esse debate?

Pensar o livro é pensar um lugar para a palavra escrita, o seu invólucro, ou, em termos atuais, a sua mídia. A palavra escrita pode residir em diferentes meios: a encadernação fina de uma editora, o papel frágil dos jornais ou as telas de cristal líquido de nossos computadores, iPad´s e Smartphones. Em qualquer mídia, texto é texto. Porém, as mídias digitais concedem novas possibilidade, novos adornos ao texto. O que são tais adornos?

Muitos artigos aludem à consideração de McLuhan para falar sobre a transformação do livro diante de suas possibilidades digitais. Parece razoável aceitar, como ele sugere, que a tecnologia das novas mídias transformam os conteúdos que elas transmitem – a própria mídia torna-se indissociável da mensagem. Será que, segundo essa perspectiva, e-readers, smartphones, iPad´s podem ser considerados livros? Não seria algo distinto do livro? Há que se ter certo cuidado, pois lidamos com conceitos que se avizinham: texto (palavra escrita), conteúdo, mensagem. Na medida em que, habilitados pelas possibilidades das mídias digitais, emprestamos ao texto novos adornos, parece razoável considerar que o conteúdo embarcado no texto já não é mais o conteúdo da mensagem. As mídias digitais transgridem a finalidade dos textos. Não mais a palavra escrita, simplesmente. Não mais o encadeamento das ideias pelas vias das possibilidades da palavra. Os novos dispositivos dispõem de outros apelos, e esses podem, na medida de suas características, até mesmo preterir da palavra escrita (texto). Os “b-apps”, expressão que refere os book-applications (aplicações-livro), prometem tirar vantagem dos recursos desses novos dispositivos para libertar o usuário da relação monótona que se estabelece entre leitor e texto.

À primeira vista isso nos entusiasma. Como poderia ser diferente? Estamos, desde o berço, acostumados a nos entreter com os coloridos dos móbiles, os ruídos dos chocalhos, os movimentos dos objetos. Os recursos digitais reeditam essas nossas preferências infantis, ofertando-nos esses verdadeiros móbiles digitais. Não que isso seja ruim, mas é fundamental estarmos cientes das razões de nosso encanto com esses dispositivos. Aquilo que se move, que pisca, que faz ruídos, que toca música, reclama a nossa atenção de forma muito mais intensa do que qualquer texto jamais conseguiu. Imagine agora tudo isso em um único dispositivo controlado por você!

Mas estamos, diante desse confuso debate, tratando da palavra escrita, daquilo que cumpre fundamentalmente a função de formar sentidos. Embora esses móbiles digitais acrescentem ao texto qualquer coisa mais sedutora que o texto em si, esse acréscimo descumpre o papel da arte da escrita. Tal não se dá por conta de um refinamento das possibilidades do texto, mas antes por que o assume insuficiente para alcançar os objetivos das nova mídias, que seja: proporcionar-nos uma experiência de entretenimento mais sensível do que cognitiva. Não se pode esquecer o que disse McLuhan: a mídia se torna a mensagem. Que mensagem, afinal?

Em termos simples. De um lado, a escrita e suas exigências para que o leitor apreenda o seu conteúdo: “Leia, pense, imagine!”. De outro, as mídias digitais e suas exigências: “Veja, toque, vá para cá, vá para lá, clique aqui!”. A primeira pede reiteradamente a concentração; a segunda proporciona primordialmente a distração.

Os vanguardistas dirão que mesmo nesses móbiles digitais o texto também é recurso. Mas não teria o texto, nesse caso, um outra função? Não seria ali o texto apenas um anteparo que concede aos outros recursos o apelo necessário para uma nova resolução para o conteúdo?

Esse é o ponto fulcral aqui – estamos diante de uma resolução. O que isso significa?

Resolução é aquilo que fala do ato de resolver, de decidir, de deliberar, de estabelecer propósito. A resolução proporcionada pelas mídias digitais, que inclui recursos acessórios além da palavra escrita, decide, delibera e resolve a experiência de um usuário. Enquanto o texto em sua monótona forma encontra um leitor, as mídias digitais encontram um usuário. Aquele que interage com esses móbiles digitais ocupa-se com os efeitos de sua interação com o conteúdo, por vezes estabelecendo uma relação extemporânea com o conteúdo em si. Já a palavra escrita, em qualquer invólucro midiático, sem recursos outros senão o próprio texto, é de outra sorte. Um texto, puramente textual, monocromático, delibera acerca da imaginação, da reflexão. Há somente o propósito de formar sentidos, exigindo, em contrapartida, que diante dele não se encontre um usuário, mas um leitor.

Decidir, desse modo, pela resolução da palavra, também é decidir pela resolução pela palavra. Guardar o texto livre dos recursos digitais é guardar o seu fundamento. “B-apps” são cativantes, tanto quanto eram os nossos antigos móbiles, e cumprem uma função da qual já não podemos mais nos privar. Contudo, para as exigências da evolução do pensamento humano, eles menos colaboram. Um usuário é pouco leitor, pois está distraído na sua relação com o conteúdo e não necessariamente com o conteúdo propriamente.

É possível que o futuro das mídias também balizará o futuro dos conteúdos e mensagens com as quais estaremos entretidos. O objeto “texto”, desde agora, parece fadado a ser ultrapassado. Porém, tudo aquilo que sobrepuja o texto, que o ultrapassa, já não é mais o texto. Isso deve ficar bem claro para todos. Essa é a oferta das mídias digitais – algo além do texto, que nos liberta das restrições da palavra escrita para que se alcance uma experiência sensível mais completa diante do conteúdo (mensagem). Convém pensar sobre isso. Reafirma-se assim a decisão mais relevante e que implicará no modo como as futuras gerações lidarão com o mundo.

Finalmente, se cultura é aquilo que se cultua, então é imperativa a resolução que se impõe. Se a sedução pelos recursos da mídia digital alcançar o privilégio daquilo que mais se cultua, então estaremos condenando a resolução pela palavra. Cada professor, cada integrante da comunidade literária e intelectual precisa cuidar disso. Pois antes de usuários, o mundo precisará sempre de leitores. Precisamos, sim, da resolução da palavra.

 

Comentários:

O texto me fez pensar. Os CDs tornaram os LPs algo mais raro, de colecionador. Os DVDs suplantaram as fitas VHS, assim como serão suplantados pelos BDs. Mas, a TV não acabou com o Rádio, o cinema não diminuiu o teatro, e o home-theater não extinguiu as idas às salas de cinema. Nem as gravações desvalorizaram os recitais e apresentações.

O que será do livro impresso daqui a vinte anos?
Manuel Estivalet, Porto Alegre/ RS 31/05/2011 - 20:07
Ótimo texto, Cássio. Todas as artes tem o que oferecer, mas a arte da palavra tem algo que só ela pode oferecer, um prazer que não se obtém da música, do cinema ou da arquitetura. Com a propagação das novas mídias, essa função não se apaga, permanece, ganha até relevância, como o teu texto sugere.
Sidnei Schneider, Porto Alegre/RS 24/05/2011 - 21:18

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