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Tornando público de qualquer modo

Cássio Pantaleoni

Não há qualquer razão para que se articule a ideia de boa literatura senão pela comparação com a má literatura. Mas todos que se envolvem de algum modo com essa discussão, seja nas esferas acadêmica, profissional ou diletante se perturba. Um grande número de “escritores” ministra, assim, pelo seu modo de contar uma história, insumo para tal debate e, quanto mais avançamos nas possibilidades da publicação de textos na mídia eletrônica, mais estabelecemos uma base comparativa furtada dos filtros tradicionais da produção literária. A internet é o que podemos chamar de “ágora democrática”. Saudada desse modo, ela se mostra permissiva, e ali abundam os “novos escritores”, postulando quebra de paradigmas, linguagem “simples e direta”, e toda a sorte de argumentos para justificar o próprio modo de fazer de qualquer jeito. Assim, essa é a questão que sobra: estamos fazendo um novo tipo de boa literatura pelas vias da revolução digital ou estamos prescrevendo, ao que antes orgulhosamente chamávamos de literatura, um veneno mortal?

Ora, antes das palavras havia os gestos e os ruídos guturais de nossos ancestrais mais remotos. Essa capacidade de comunicar ao outro, mesmo que de modo tão rudimentar, é o que possibilitou a manutenção dos costumes, a conformação da cultura e o próprio espírito dos povos. Naqueles gestos e ruídos pitencatrópicos já se pretendia o “sentido”. E esse é o objetivo de comunicar: provocar no outro o “mesmo” sentido, de modo a transportar de um para outro a experiência subjetiva. Mas de que modo se pode precisar o sentido senão pela sofisticação da linguagem? A linguagem rica pode representar unidades de sentido cada vez mais apuradas, proporcionando assim aquilo que denominamos de “insights” sobre as coisas do mundo. Mas não é o que se vê pelas vias das páginas de megapixels da internet. Em grande medida, a linguagem é mundana, rudimentar, refém de um vocabulário cariado, salvo raras exceções.

Nós nos esforçamos em motivar nossos filhos a lerem bons livros porque assumimos, inconscientemente ou não, que eles precisam enriquecer os elementos da linguagem. É através desse processo que eles serão capazes de articular unidades de sentido que os prepararão para o grande desafio da interação social. Como capacitá-los para um debate se todos os seus recursos comunicacionais se limitam a grunhidos e gestos pitecantrópicos? Como imaginar que eles possam encontrar as razões fundamentais para isso ou aquilo sem os recursos da comunicação sofisticada que todos os povos desenvolveram através da linguagem? Será que sabem realmente “dizer” aqueles que advogam a “descomplicação do dizer”?

Voltemos à literatura. Literatura é linguagem que se esforça por contar uma historia de um modo que foge do comum. Os grandes mestres foram grandes exatamente porque desenvolveram modelos narrativos surpreendentes. Nem sempre eles contaram uma boa história, mas os modos como as contaram foi fundamental para colocá-los na posição de mestres.

O que vemos pela janela da revolução digital é uma crescente produção escrita. Muita gente escrevendo e publicando os seus textos na internet. E é bom lembrar que todos os textos que estão ali são passíveis de serem reproduzidos tal e qual. Temos uma relação interessante com a reprodução. Pense na reprodução humana e você entenderá o que quero dizer. E a exemplo dela, a reprodutibilidade do que é publicado na internet depende daquilo que é dominante. O que mais se vê é o que mais se reproduz. Como os genes, o que resulta é possivelmente o que mais ocorre nas gerações anteriores. Na escrita, o que se encontra na internet cumpre o papel exemplar para uma geração de jovens que nunca entendeu propriamente o que é literatura. O modelo de produção escrita acompanha os quesitos essenciais da revolução digital: velocidade, temporariedade, distração fortuita, descartabilidade, esquecimento etc. Tudo o que a boa literatura NÃO pretende. Esse é o aspecto essencial da revolução digital: ela nos distrai do fato que a reprodução é tão somente reprodutiva (embora tenhamos acelerado o modo de reproduzir). O que resulta publicado no mundo digital são os modos dominantes do sistema, suas características mais comuns. A complexidade desse sistema de reprodução é ignorada pelos seus participantes. Aqueles que acessam esse ambiente estão submetidos às regras dominantes do mundo digital – temporariedade, descartabilidade, distração fortuita etc. Nas palavras do filósofo Miroslav Milovic: “Quem está se comunicando é o próprio sistema, não os seres humanos”.

Sei que há os que pensam que a internet é um espaço de emancipação da literatura. Para muitos, os riscos de um império da mediocridade não está em pauta, pois pelo menos há um lugar para tornar pública a obra. Grande parte dos participantes do mundo digital não deseja a emancipação, mas apenas interagir em uma praça que funciona sem crítica alguma. Esse é o autismo do ser humano atual. O diálogo aparente da internet é apenas um monólogo: quem fala, quem determina o modo de dizer as coisas, é ela mesma.Contudo, queremos publicar de qualquer jeito, não é mesmo? E para publicar qualquer coisa de qualquer jeito a intenet cumpre o seu papel. Talvez não haja antídoto, ou talvez nem haja veneno. Mas a dúvida devia nos tirar o sono.

 

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